Dona Do Dom

Ricky Vallen

 

Dona do dom que deus me deu

Sei que é ele a mim que me possui

E as pedras do que sou dilui

E eleva em nuvens de poeira

Mesmo que às vezes eu não queira

Me faz sempre ser o que sou e fui

E eu quero, quero, quero, quero ser sim

Esse serafim de procissão do interior

Com as asas de isopor

E as sandálias gastas como gestos do pastor

 

Presa do dom que deus me pôs

Sei que é ele a mim que me liberta

E sopra a vida quando as horas mortas

Homens e mulheres vêm sofrer de alegria

Gim, fumaça, dor, microfonia

E ainda me faz ser o que sem ele não seria

E eu quero, quero, é claro que sim

Iluminar o escuro com meu bustiê carmim

Mesmo quando choro

E adivinho que é esse o meu fim

 

Plena do dom que deus me deu

Sei que é ele a mim que me ausenta

E quando nada do que eu sou canta

E o silêncio cava grotas tão profundas

Pois mesmo aí na pedra ainda

Ele me faz ser o que em mim nunca se finda

E eu quero, quero, quero ser sim

Essa ave frágil que avoa no sertão

O oco do bambu

Apito do acaso

A flauta da imensidão